A busca incessante pelo pertencimento, o respeito à ancestralidade e a valorização da história singular de cada criança e adolescente marcaram com intensidade a realização do V Seminário sobre Adoção em Piracicaba, ocorrido no dia 09 de outubro de 2026, no auditório da Associação Comercial e Industrial de Piracicaba (ACIPI). Sob o tema norteador “As Cores da Adoção: O Direito às Origens”, o encontro reuniu centenas de profissionais que integram o Sistema de Garantia de Direitos, educadores, estudantes, famílias adotivas, pessoas adotadas, pesquisadores e membros da comunidade em geral para uma manhã densa de sensibilidade, rigor técnico, acolhimento e diálogos profundamente transformadores.
Organizado de forma minuciosa pelo Grupo de Apoio à Adoção de Piracicaba (GAAP), o seminário consolida-se ano a ano como um dos mais relevantes marcos de formação continuada, sensibilização e conscientização social de toda a região. Desde a ambientação visual do espaço — pensada com imenso zelo pedagógico e estético — até as apresentações culturais, intervenções artísticas e painéis reflexivos, o público foi envolvido por uma atmosfera ética e acolhedora. Foi um convite coletivo para superar discursos romanceados e enxergar a adoção a partir de sua complexidade humana, social e jurídica.
Um Espaço de Acolhimento, Memória e Sensibilidade: Do Cenário ao Ato de Abertura
A experiência imersiva do V Seminário teve início no exato instante em que os participantes cruzaram as portas da ACIPI. A equipe do GAAP planejou uma estrutura acolhedora onde cada elemento da decoração conversava diretamente com a temática proposta para o ano. Painéis, cores e texturas foram articulados para simbolizar as teias da diversidade, o entrelaçamento de trajetórias de vida e a imperiosa necessidade de preservar e honrar as origens familiares, biológicas e étnico-raciais de cada sujeito. A estética do ambiente comunicava, antes mesmo das falas oficiais, que falar de origem é falar de dignidade, história e construção de identidade.
A sensibilidade e a força política e cultural do Ato de Abertura integraram de maneira harmônica as linguagens das artes cênicas e da cultura afro-brasileira. A abertura artística foi conduzida pela educadora e mestra em Artes da Cena Julia Giannetti, que apresentou uma performance de forte impacto emocional baseada na obra “Um corpo no mundo”, da cantora e compositora Luedji Luna. Por meio de gestos, movimentos e ocupação do espaço, a performance traduziu a busca pelo lugar de pertencimento e as marcas que a ancestralidade e a memória deixam na trajetória de qualquer indivíduo.
Interligada a esse momento de abertura, a participação especial de Elaine Teotonio, representando o Instituto Afropira, trouxe para o auditório uma dimensão de forte celebração e conexão. Elaine esteve acompanhada por seu filho Vinícius, partilhando com os presentes a potência do ritmo, da voz, da música e da cultura negra. A apresentação ressaltou como as manifestações culturais e os vínculos de afeto funcionam como pilares fundamentais para a estruturação da autoestima de crianças e jovens, criando pontes indissociáveis entre a história individual e a memória coletiva de um povo.
Debates Necessários: A Escuta Ativa das Pessoas Adotadas e a Desconstrução de Mitos
O ciclo de palestras principais do evento teve como compromisso central dar visibilidade e centralidade às narrativas e vivências das próprias pessoas adotadas. O painel quebrou tabus históricos ao questionar práticas institucionais e sociais que, por muitos anos, silenciaram a necessidade do resgate e da manutenção da história de origem das crianças e adolescentes acolhidos.
1. “De quantas violações é feita uma adoção?” — Fernanda Tuna
A primeira palestrante a ocupar o palco foi Fernanda Tuna, Conselheira Tutelar, ativista na causa da adoção, criadora do influente perfil @euadotiva, cofundadora da ADOTIVA (Associação Brasileira de Pessoas Adotadas) e pessoa adotada. Com uma abordagem corajosa, franca e pautada no compromisso ético com os direitos humanos, Fernanda convidou a plateia a fazer um exercício de alteridade e maturidade social ao refletir sobre as rupturas e dores que antecedem a formação de qualquer vínculo adotivo.
Sua exposição sublinhou que a adoção é, por definição legal e prática, uma medida protetiva e excepcional de garantia de direitos que surge após a ocorrência de severas violações de direitos ou da impossibilidade de manutenção da criança em sua família de origem. Fernanda enfatizou que reconhecer a existência dessa perda primordial não invalida o amor, o cuidado ou a legitimidade da nova família adotiva. Pelo contrário: compreender as dores da perda e da ruptura possibilita que os pais adotivos e os profissionais da rede ofereçam um acolhimento autêntico, empático e livre de exigências de gratidão compulsória, permitindo que a pessoa adotada elabore suas vivências com dignidade e verdade.
2. “Adotiva e Biológica: encontros com as origens nas encruzilhadas da adoção” — Maura Nascimento
Na sequência, a psicóloga clínica, poeta e também cofundadora da ADOTIVA Maura Nascimento emocionou o auditório ao articular sua bagagem teórica e profissional à sua própria história de vida. Filha de uma construção familiar plural, Maura compartilhou o momento divisor de águas em que reencontrou sua mãe biológica aos 25 anos de idade, momento no qual pôde confirmar e reafirmar sua ancestralidade indígena.
A palestra de Maura destacou a urgência de encarar a busca pelas origens não como um ato de rivalidade em relação à família adotiva, mas como uma necessidade estruturante do psiquismo humano. A palestrante explicou que o acesso à biografia, às informações médicas, genéticas e culturais de origem não divide a afeto; pelo contrário, integra as partes fragmentadas do sujeito, trazendo pacificação emocional, fortalecimento da autoimagem e clareza sobre quem se é no mundo. Maura demonstrou teoricamente que ter o direito de conhecer suas raízes é uma premissa básica de saúde mental e de respeito à dignidade humana.
3. “Construindo novos sentidos sobre a adoção a partir das perspectivas de pessoas adotadas” — Dra. Patricia Glycerio Rodrigues Pinho
Encerrando o primeiro bloco da manhã, a Dra. Patricia Glycerio Rodrigues Pinho, psicóloga do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), doutora em Psicologia pela PUC-Rio e coordenadora do Grupo de Apoio à Adoção Café com Adoção, trouxe contribuições acadêmicas e operacionais de extrema relevância. Respaldada por anos de atuação no sistema de justiça e por suas pesquisas sobre a filiação adotiva, a Dra. Patricia apresentou reflexões sobre como a escuta qualificada das pessoas adotadas precisa transformar a atuação de juízes, promotores, assistentes sociais e psicólogos.
A palestrante alertou para a importância de que as instituições de acolhimento e as equipes técnicas realizem a preservação ativa da história de vida das crianças desde os primeiros momentos de seu acolhimento institucional. Fotografias, registros de saúde, objetos pessoais, relatos sobre os genitores e cadernos de memória não são meros detalhes burocráticos, mas ferramentas fundamentais para que o futuro daquela criança não seja construído sobre o esquecimento ou a negação do seu passado. A Dra. Patricia reforçou que o Judiciário e os Grupos de Apoio à Adoção têm o papel pedagógico de orientar os postulantes à adoção sobre a importância de acolher a história pregressa de seus filhos com respeito e naturalidade.
Mesa Temática: Raça, Ancestralidade e Pertencimento na Infância Adotiva
Um dos momentos de maior densidade reflexiva e engajamento do público no seminário foi a realização da Mesa Temática intitulada “As cores das raízes e dos afetos: ancestralidade, identidade e pertencimento na adoção”. O painel debruçou-se sobre a intersecção entre o processo adotivo e as relações étnico-raciais no Brasil, trazendo para o debate a docente, pesquisadora e especialista Dra. Caroline Jango.
Pedagoga, Mestra e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — com estágio doutoral realizado na Universidade de Coimbra, em Portugal — e atual Diretora Geral do Câmpus Hortolândia do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), a Dra. Caroline Jango compartilhou com o público o acúmulo de seus 20 anos de pesquisas sobre o enfrentamento ao racismo no ambiente escolar e na infância. Autora da obra “Aqui tem racismo!”, a pesquisadora trouxe uma análise fundamentada sobre os desafios enfrentados por crianças negras adotadas por famílias brancas.
Durante a mesa, debateu-se o fato incontroverso de que a imensa maioria das crianças e adolescentes aptos para a adoção e acolhidos em abrigos no Brasil é negra (preta ou parda). Nesse cenário, a Dra. Caroline enfatizou que o desejo de adotar precisa vir acompanhado de um profundo letramento racial por parte dos pretendentes. Ficou registrado que a boa intenção e o amor filial, embora indispensáveis, não são suficientes para blindar uma criança negra contra os impactos do racismo estrutural presente na sociedade.
A pesquisadora reforçou que adotar uma criança negra exige que os pais adotivos assumam um compromisso ativo antirracista. Isso implica rever seus círculos sociais, frequentar espaços onde a cultura negra seja valorizada, garantir que a criança tenha referenciais negros positivos em seu cotidiano (médicos, professores, artistas, amigos), cuidar adequadamente de seus cabelos e pele, e ensiná-la a ter orgulho de sua ancestralidade. A mesa concluiu que preparar uma criança para viver em uma sociedade racialmente desigual é um ato de proteção e de verdadeiro afeto parental.
Uma Entrega Coletiva, Agradecimentos e o Compromisso com o Futuro
O encerramento do evento foi marcado por aplausos efusivos, forte emoção e por um sentimento compartilhado de renovação de compromissos coletivos. O êxito absoluto do V Seminário sobre Adoção em Piracicaba reflete o esforço contínuo e o trabalho incansável de toda a diretoria, colaboradores e equipe do Grupo de Apoio à Adoção de Piracicaba (GAAP), que se dedicaram ativamente durante meses nos bastidores para assegurar que cada detalhe logístico, pedagógico e humano fosse executado com excelência.
Registramos aqui a nossa mais sincera gratidão aos mais de centenas de participantes que lotaram o auditório da ACIPI. A presenças de vocês, as perguntas enviadas, as anotações feitas e a escuta generosa demonstrada ao longo de toda a manhã foram os ingredientes principais para que este seminário se transformasse em um verdadeiro espaço de transformação e aprendizado comunitário.
A realização deste evento só foi possível graças à convergência de forças e ao apoio institucional de organizações comprometidas com a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Nossos agradecimentos públicos e especiais a:
Realização: @gaap.piracicaba e @pascapiracicaba
- Local e Apoio Institucional: @acipi_piracicaba
- Apoio e Rede Intersetorial: Prefeitura Municipal de Piracicaba (Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social), Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e @agaaesp
- Participações e Contribuições Especiais: @euadotiva (Fernanda Tuna), Maura Nascimento, Dra. Patricia Glycerio Rodrigues Pinho, Dra. Caroline Jango, Julia Giannetti e @afropira (Elaine Teotonio)
Mais do que um encontro pontual no calendário da cidade, o V Seminário sobre Adoção deixa um legado duradouro de conceitos atualizados, diretrizes práticas e provocações necessárias para toda a rede socioassistencial, jurídica, de saúde e educacional de Piracicaba e região. As teses e reflexões defendidas ao longo do evento reafirmam que o direito às origens não constitui um detalhe secundário ou burocrático, mas sim um direito humano inalienável, inviolável e absolutamente essencial para a construção da identidade, da saúde psíquica e da cidadania de todas as pessoas adotadas.
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